Histórias da Kata – Luís Cayón

Por Luís Cayón (Brasília, 16/07/2020)

O que é a katacumba para você?

Com a exceção de algumas viagens curtas e do ano que estive fora fazendo o campo do doutorado, praticamente frequentei a katakumba todos os dias entre março de 2004 e janeiro de 2011, incluindo páscoa, natal, ano novo… Passei as fases iniciais do namoro com minha esposa e toda a gestação do meu filho na Katakumba. Por isso, para mim, a kata é uma parte fundamental da minha experiência inicial no Brasil, e, certamente, foi uma fase existencial que terminou quando formei a minha família. Pelo lado profissional, foi o lugar onde tive a paz e o conforto para me dedicar como nunca à leitura e aos estudos, o qual me permitiu conectar conhecimentos e ideias que antes eram algo etéreas; também gerei muitas novas análises, escrevi artigos, relatórios e toda a minha tese. Pelo lado pessoal, foi o lugar mais importante durante meus primeiros anos em Brasília pois ali aprendi a ser “eu” como pessoa e antropólogo num novo registro: na kata aprendi a entender e falar o português do dia a dia, tive tanto amizades e desafetos como amores e ódios, criei memórias sobre o Brasil, tive que construir uma vida desde o zero num ambiente desconhecido, onde estava bastante sozinho e isolado da minha vida anterior e, ao mesmo tempo, tinha um universo novo para conhecer e me adaptar. No final do meu período como estudante de doutorado, estrangeiro, em prorrogação e sem bolsa, não tive outro remédio que me instalar tempo integral na minha sala. Sem mentir, muitas vezes nem vi a luz do dia e, de madrugada, senti outra vez a escuridão total das noites sem lua nas malocas makuna e conheci o silêncio absoluto… Em retrospectiva, estar na kata não foi um processo simples nem um lugar fácil, mas foi um lugar de refúgio, acolhimento e a única opção de vida social durante vários anos; por isso lhe guardo muito carinho, mas não sinto saudades. Ir embora resultou muito mais fácil do que pensei. Fiquei algo mais de 6 meses após a defesa da minha tese, e ainda tinha alguns objetos pessoais quando aconteceu a enchente e destruição da Katakumba em abril ou maio de 2011, se não me engano.

O que ela significou na sua trajetória?

A kata foi muito significativa pela troca de ideias com colegas, pela “orientação” informal já que podia opinar sobre as pesquisas de quem o permitia, muitas vezes ajudando a encontrar caminhos interpretativos ou recomendando leituras. Também me ajudou a perceber algumas situações que fazem parte dos estados de ânimo do difícil ciclo de cursar mestrado e doutorado e que hoje facilitam minhas conversas de orientação: todo mundo experimenta nalgum instante o clímax do lampejo, a tristeza e frustração depois de um encontro de orientação, o bloqueio na escrita, o conhecimento dos limites da própria ignorância, as dúvidas sobre a relevância e os caminhos da pesquisa, o vislumbre de uma tese faraônica… Por fortuna, permaneci na Katakumba numa época onde o diálogo e a crítica eram o mais importante, onde não existiam mais as projeções dos conflitos do DAN entre o corpo discente, tempo de brigas e insultos entre estudantes, nem, como ocorreu anos mais tarde, quando se gestou uma grande hostilidade dos discentes com relação aos professores, o qual gerou uma enorme tensão no departamento como um todo. As pessoas com as quais partilhei a Katakumba gostavam de sentar a tomar café, algumas a fumar um cigarro, para conversar sobre o que leiam, sobre as aulas, sobre a situação política, sobre música, e sempre havia alguém que conhecia histórias e boatos que alimentavam o acervo mitológico sobre o corpo docente, levando às risadas. No dia a dia era um ambiente sério e divertido, de emoções intensas.

Pensando no passado, sempre me perguntei “e se as paredes da Katakumba falaram, quais seriam as histórias que contariam?” Agora que me perguntam como parte dessa história, penso que é melhor não contar nada do que sei. O que acontece na Katakumba fica na Katakumba.

Podcast, divulgação científica e desigualdades

No dia 31 de março, próxima quarta-feira, algumas das vozes que integram a rádio kerekere vão participar de um debate com transmissão ao vivo. A atividade que integra o projeto Gênero e Desigualdades é promovida pelo Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (Unicamp) e o Numas – Núcleo de Estudos Sobre Marcadores Sociais da Diferença (USP).


Na ocasião serão discutidas as relações entre a podosfera e o campo científico na reflexão sobre desigualdades. A mesa também discutirá os processo de produção de podcasts e as possibilidades de comunicação com públicos mais amplos por meio de estratégias de divulgação científica em ciências sociais.

A mesa será composta por Bruner Titonelli, da equipe do podcast Conversas da Kata, Paula Lacerda (Campo – podcast de antropologia), Patrícia Pinheiro (Observantropologia) e Ramon Reis (Compósita). A mediação é de Carolina Parreiras.

A live será transmitida pelo canal do Numas no Youtube e pela página do Pagu no Facebook a partir das 18h.

Fazer etnografia na pandemia: propagando caminhos possíveis via ondas sonoras

por Juliane Bazzo

O podcast “Fazeres etnográficos em tempos de pandemia” se configura, a um só tempo, como uma ferramenta de ensino, um esforço de pesquisa e um produto de divulgação científica em Antropologia. Esse artefato resulta de uma disciplina de mesmo nome, ministrada por mim enquanto professora visitante do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Grande Dourados, durante o segundo semestre do regime de educação remota emergencial de 2020. 

A disciplina abraçou como tema a feitura de etnografias em tempos de isolamento social, devido à pandemia de Covid-19. A proposta residiu em debater, com as(os) discentes inscritas(os), caminhos possíveis para a continuidade de suas pesquisas de mestrado, em um contexto no qual o coronavírus coloca obstáculos às interações presenciais, tão características do trabalho de campo que subsidia a construção etnográfica em Antropologia.

O plano de aprendizagem contemplou a etnografia digital, mas procurou não situar essa modalidade como a única saída aos desafios do momento. Nesse sentido, o programa do curso reuniu alternativas adicionais de investigação, que exploram outros mediadores capazes de colaborar com o distanciamento físico entre pessoas exigido na atualidade. Entre eles, emergem as imagens, os sons, os documentos, os objetos, a literatura, como também nossas próprias casas, os trânsitos imprescindíveis pela rua para necessidades essenciais e a autoetnografia.

A fim de abordar as potencialidades dessas mediações, convidei nove antropólogas(os) que, em áudios, compartilharam com a turma dicas, conselhos, experiências e reflexões acerca de cada uma delas, com o propósito de (re)pensar e (re)direcionar etnografias nessa singular circunstância. Colaboraram nessa empreitada profissionais de três das cinco regiões do Brasil – nordeste, sudeste e sul – e também com atuação fora do país: Denise Pimenta (CIDACS/Fiocruz-BA), Debora Leitão (Université du Québec), Viviane Vedana (UFSC), Lucas Freire (PPHPBC/CPDOC/FGV-Rio), Aline Rochedo (PPGAS/UFRGS), Alessandra El Far (Unifesp), Fabiene Gama (UFRGS), Eva Scheliga (UFPR) e Fabio Mura (UFPB).

Esse conjunto de áudios, que deu forma adiante ao podcast, se dispersou ao longo do semestre letivo por WhatsApp, onde a maior parte da disciplina transcorreu on-line. Essa era a plataforma de acessibilidade mais ampla entre o alunado, confirmada por enquete antes do início do curso. A consulta prévia desejou assegurar, em especial, o direito de que as(os) discentes indígenas, cujo número é significativo na Universidade Federal da Grande Dourados, pudessem frequentar a disciplina. O estado do Mato Grosso do Sul, onde está localizada a universidade, conta com a segunda maior população de indígenas no Brasil. Como sabido, há ainda muitos e enormes débitos históricos do poder público perante a cidadania efetiva desse coletivo, o que abrange a inclusão digital irrestrita nos territórios indígenas mais distantes dos centros urbanos.        

As(os) antropólogas(os) convidadas(os) a contribuir com suas vozes na disciplina são, em maioria, autoras(es) de referências que compuseram o programa de ensino. As interfaces de pesquisa por elas e eles abordadas compartilham uma história comum de esforços para evidenciar legitimidade perante um modo original de se fazer Antropologia, pautado nos encontros presenciais e na demanda por um “outro” distante, para assegurar o estranhamento. As circunstâncias hoje vividas com a pandemia lançam ainda mais luz, portanto, a práticas etnográficas que vêm enriquecendo a Antropologia já há muito tempo e, definitivamente, não estão à margem.

Por reunir variadas frentes possíveis de etnografia, o programa do curso mobilizou uma literatura acadêmica que passa longe de ser exaustiva a cada uma delas. A ideia era que as(os) estudantes pudessem avançar, para além da disciplina, nas frentes que considerassem produtivas para suas investigações particulares. Embora entre as referências selecionadas já existisse uma quantia expressiva situada no cenário da Covid-19, uma boa parte abarcou situações de pesquisa de origem prévia a essa conjuntura. Sendo assim, as indicações de leitura procuraram funcionar como inspirações para boas discussões e reflexões a respeito de adaptações viáveis, como também de seus limites, no contexto sanitário em foco.

EPISÓDIO 8 - Etnografia entre a casa e a rua, com Eva Scheliga - YouTube

Ao longo das nove semanas da disciplina, portanto, as(os) discentes receberam, por meio de um grupo montado no WhatsApp, um roteiro de estudos, composto pelas leituras indicadas e por um audiocomentário da professora a respeito delas, orientada por um mapa mental do conteúdo. A isso se somavam as vivências, conselhos e reflexões gravadas pelas(os) profissionais convidadas(os), chamadas internamente ao curso de “audiodicas”. A partir disso, as(os) estudantes realizaram exercícios, de modo a experimentar as possibilidades de cada uma das alternativas de pesquisa apresentadas, conforme seus próprios interesses investigativos. A cada quinzena, aproximadamente, a turma se reunia comigo on-line, para debatermos, sob motivação de perguntas-chave elaboradas pelas(os) alunas(os), com base nas leituras e também nos exercícios realizados. 

À medida que a disciplina se aproximava do fim, constatei que as “audiodicas” se mostravam tão ricas e tinham nutrido de tal modo o entusiasmo entre as(os) estudantes, que me pareceu oportuno ampliar sua circulação. Dessa forma, nasceu o podcast “Fazeres etnográficos em tempos de pandemia”, no qual as “audiodicas” das(os) antropólogas(os) convidados foram dispostas em episódios, junto da literatura trabalhada a cada semana. 

Em cada episódio, as falas dessas(es) profissionais surgem apresentadas na íntegra, sem cortes ou efeitos – aquilo que possa ter faltado em tecnologia, quero argumentar, certamente terá sido compensado em pedagogia. Para fins de assegurar a acessibilidade, legendas com a transcrição dos áudios foram ativadas em todos os episódios disponíveis no YouTube. O podcast pode ser ouvido ainda em outras plataformas de streaming, como Spotify, por exemplo.   

Mais que ofertar respostas definitivas às problemáticas que envolvem a realização de etnografias no presente panorama, a disciplina que originou o podcast almejou funcionar como um laboratório de experimentações, no qual cada estudante, conforme sua realidade, se permitisse montar uma “caixa” de possibilidades de pesquisa que se revelassem instigantes para atravessar esse momento, considerando os impactos materiais e emocionais.

Como trabalho final de curso, provoquei as(os) discentes a construírem seu “plano B” de pesquisa, cujo contexto seria de continuidade da pandemia e/ou de seus efeitos. Como resultado, uma discente indígena, por exemplo, interessada em investigar o conhecimento das mulheres de sua etnia sobre remédios tradicionais, percebeu como frutíferas a etnografia de seu próprio ambiente familiar, como também a autoetnografia. Outra aluna apostou nas afinidades entre antropologia e literatura, com a proposta de estudar o atual momento político do Brasil por intermédio de narrativas fantásticas. Houve ainda quem lançasse mão da etnografia digital, de documentos, de objetos, bem como de imagens e sons existentes para problematizar temas variados, a saber: suicídio e pandemia; rituais religiosos e tradicionais; assim como situações de violação de direitos humanos. 

Foi também com esse convite de experimentação que circulei o podcast a um público mais amplo via redes sociais virtuais. Surpreendeu-me o interesse em conferir os episódios não apenas por parte de acadêmicas(os), mas, sobretudo, de profissionais das Ciências Sociais atuantes fora da universidade, diante da centena de compartilhamentos que a notícia sobre o podcast obteve na plataforma LinkedIn.

Todos esses desdobramentos – de uma disciplina que acabou se tornando um podcast – me sintonizam ao alerta de Tim Ingold: no processo de superação de dicotomias ocidentais reducionistas, é preciso não mais opor o ensino e a pesquisa, como duas atribuições que a professora-pesquisadora realiza separadamente, uma em detrimento do tempo da outra. Poderíamos pensar aqui, adicionalmente, a extensão universitária.

Na visão do autor, tais atividades configuram “práticas de educação” intrinsecamente ligadas, nas quais a docente-investigadora tem o papel de conduzir caminhos em favor da construção do conhecimento, dentro e fora da sala de aula, dentro e fora de seu campo de pesquisa mais circunscrito. Ela realiza essa tarefa em meio à vivência com suas/seus estudantes e também, acredito, no diálogo com a comunidade mais ampla, enquanto coletivos potentes de discussão e reciprocidade.

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Este artigo é a versão em português de comunicação realizada em 17 de março de 2021 no Teaching and Learning Anthropology Network Webinar – Teaching and Learning Anthropology during the Pandemic: Dilemmas, Challenges and Opportunities, promovido pela European Association of Social Anthropologists (EASA). Mais informações sobre o podcast estão disponíveis na blog Primavera nos dentes, e o conteúdo está disponível nos tocadores da Anchor, Apple podcasts, Breaker, Google podcast, Pocket casts, radio public e Spotify.

Podcasts como ferramenta de ensino-aprendizagem em Antropologia

por Paula Lacerda e Carolina Parreiras, originalmente publicado na revista Teaching Anthropology

Quando a pandemia da Covid-19 nos atingiu e as aulas presenciais se tornaram impossíveis, fomos forçadas a repensar como ministrar nossos cursos de uma forma que não dependesse apenas de aulas remotas por meio de plataformas digitais. Foi isso que nos levou a inovar e refletir sobre o papel dos dispositivos tecnológicos na promoção do envolvimento e da participação dos alunos. Neste post do blog, originalmente publicado em dezembro de 2020 na Teaching Anthropology, analisamos o uso de podcasts no ensino de Antropologia. Consideramos como uma ideia inicialmente criada para um curso específico, em uma universidade pública brasileira, tornou-se uma experiência maior de disseminação científica e inovação mais ampla, promovendo mais do que o envolvimento e a participação dos estudantes.

É importante ressaltar que os podcasts acadêmicos não são algo totalmente novo. Entretanto, queremos refletir sobre o uso de um produto tecnológico que possa criar novos meios para envolver os estudantes com o seminário e o conteúdo nele abordado. A antropologia é uma disciplina historicamente constituída pela experimentação, por isso a criação do podcast – no qual discutimos autoras e estudos em termos de suas contribuições para este campo de pesquisa – foi um grande laboratório para criar, testar, inovar tecnologicamente e buscar novas formas de apresentar ideias, temas e trajetórias.

O curso “Gênero, Estado e Processos de Subjetivação” foi oferecido a uma turma de 30 alunos de pós-graduação durante um semestre e fez parte do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciências Sociais. Diante dos desafios criados pela pandemia, e seguindo recomendações para explorar novas formas de ensino em ambientes remotos e criamos o “Campo: Um podcast de Antropologia”, disponível nas principais plataformas de streaming.

Os podcasts estão aumentando em popularidade como uma forma de disseminar o conteúdo acadêmico em uma linguagem simples. O formato frequentemente envolve episódios temáticos que exploram como e porque um texto ou ideia em particular foi desenvolvido, as principais influências teóricas, como o estudo foi recebido e posteriormente aplicado por outros autores. Escolhemos focar nossos podcasts no debate de ideias, pois este é o elemento mais importante no processo de ensino-aprendizagem. O histórico do texto e os movimentos teóricos foram discutidos coletivamente em aulas on-line após o lançamento do podcast.

A tecnologia pode ser um importante aliado no processo de ensino-aprendizagem durante um período em que as aulas presenciais são impossíveis. Não ignoramos, no entanto, que em um país como o Brasil, as taxas de desigualdade digital são relevantes e preocupantes. Eles atestam o caráter não democrático do acesso ao aparato tecnológico e às redes. Em nossa experiência, o feedback dos estudantes foi muito positivo e, com base nas questões levantadas por eles – por exemplo, a dificuldade de acesso às plataformas de streaming pagas – conseguimos adaptar o formato e o conteúdo. Uma dessas mudanças foi a utilização de um programa de hospedagem de podcast que permite sua distribuição em oito plataformas diferentes, para que qualquer pessoa pudesse escolher onde ouvir e acessar o conteúdo. Nossas experiências na criação do podcast corroboram com discussões no campo da antropologia digital sobre os desafios de fomentar e explorar novas formas de envolvimento e participação, especialmente com o uso da tecnologia nos processos educacionais.

logo campo podcast

Além do podcast, sentimos a necessidade de construir outras plataformas (um website e perfil Instagram) com três objetivos principais: divulgar o podcast e promover o envolvimento com o público, apresentar materiais educativos complementares (imagens comentadas, notícias, breves resenhas de livros, todos relacionados às autoras discutidas), e fornecer uma transcrição dos episódios, assumindo um compromisso com as práticas de acessibilidade. Investir em acessibilidade foi a principal motivação para criar ambientes digitais mais acessíveis a diferentes organismos e formas de estar no mundo, e para minimizar as desigualdades já mencionadas.

A primeira temporada foi composta por 6 episódios, com uma duração média de vinte minutos. Acreditamos que a linguagem utilizada, e a curta duração dos episódios são elementos a serem considerados na produção de materiais como um podcast atendidos em debates acadêmicos. Como não é possível especular sobre o contexto no qual o podcast é ouvido – seja em um ambiente de estudo ou não, com a possibilidade de tomar notas ou não – consideramos apropriado o uso de linguagem simples, tornando cada episódio adequado a um público variado, mas particularmente dirigido a estudantes de graduação e pós-graduação, que já têm uma compreensão básica de temas e conceitos antropológicos centrais.

Embora inicialmente destinado aos alunos do curso “Gênero, Estado e Processos de Subjectificação”, consideramos que a linguagem acessível do podcast o torna adequado para o ensino de estudantes de graduação ou pós-graduação, interessados em temas semelhantes além da Antropologia. O mapeamento dos dados dos podcasts associados ao website e dados de perfil da Instagram indicam a circulação do material além do público inicialmente planejado, com pessoas acessando o conteúdo em diferentes partes do Brasil e de diferentes faixas etárias.

Nosso objetivo neste post do blog é incentivar a discussão sobre o uso da tecnologia nas práticas educacionais. Em uma situação como a que estamos vivendo, esperamos que nosso podcast possa servir de exemplo para outras experiências e inovações no ensino da antropologia.

Nossos podcasts estão disponíveis gratuitamente no Spotify e são gravados em português. Os episódios duram aproximadamente 20 minutos. Durante a primeira temporada, cobrimos os seguintes autores: Gloria Anzaldúa, bell hooks, Veena Das, Michel Foucault, Judith Butler, Mara Viveros Vigoya.

Para pessoas interessadas no uso de podcasts no contexto de ensino, aqui vão algumas dicas.

  1. Antes de começar, é importante ter algumas perguntas respondidas de antemão: que conteúdo eu pretendo abordar? Como abordar este conteúdo (entrevistas com convidados regulares ou ocasionais? Um comentário sobre materiais como novos lançamentos, artigos de notícias, leituras clássicas?) Que público eu gostaria de atingir?
  2. Para produzir seu podcast, você não precisa ter nenhum equipamento especial. O dispositivo de gravação em um telefone celular, um ambiente silencioso, conexão à Internet e uma plataforma de transmissão de podcast são suficientes para que você possa começar. Existem plataformas livres (ex: Anchor, Buzzsprout) para transmitir seu material e, por meio delas, você pode disponibilizar seu podcast em diferentes tocadores (Spotify, ApplePodcast, etc.).
  3. Quanto mais direta e objetiva for sua linguagem, mais eficaz será sua comunicação com seu público. Portanto, para começar, é bom planejar episódios curtos. No início de cada episódio, comece com o nome do podcast e o assunto que será abordado.
  4. Construa as estratégias de divulgação de seu podcast. Um perfil simples nas redes sociais pode ser um bom ponto de partida. Criar um site requer um pouco mais de conhecimento tecnológico, mas existem plataformas e tutoriais gratuitos na internet que podem ajudar nesta empreitada!
  5. A acessibilidade é uma questão importante em relação aos podcasts (e qualquer conteúdo online). Nossa estratégia é disponibilizar transcrições de cada um dos episódios. Isto pode ser feito usando ferramentas de transcrição automatizada postadas em muitos formatos no website/blog. O Podcas Acessibility é um website foi muito importante para nós na criação de um podcast acessível:

Krônicas da Kata: Achado Aqueológico

por Bruner Titonelli
do Podcast Histórias da Kata


Dois anos. Uma mesa. Três gavetas. A primeira de baixo para cima trancada com uma chave perdida sabe-se lá desde quando. Curiosidades aumentam. Sucessões de pessoas sentadas por ali não tinham notícias da última vez que ela deslizou e mostrou seu conteúdo.

Uma serra. Pequena, mas suficiente para tirar o trinco adormecido há cerca de 15 anos. Um achado arqueológico. Como se descobriu depois pelos relatos daquele que um dia fechou aquela máquina do tempo.

Um desses integrantes que perpassaram diferentes gerações katacumbeiras. Ele acabara de reencontrar um álbum de fotos perdidas. Em meio aos vários entulhos sobreviventes, aquele ali viu alguma luz novamente. Retratos de uma versão jovem de si mesmo. De outro mundo. Outra época.


Para acompanhar outras crônicas da Kata, vejam nosso perfil no Twitter, no Instagram e também nos escutem no seu tocador de podcast preferido.

Sob Vestes Drags

No quinto episódio do projeto Antropologias Compósitas, Ramon Reis conversou com a cientista social Izabela Jatene. O episódio pode ser ouvido aqui. Na conversa, Izabela contou sobre a sua pesquisa de mestrado com drag queens, realizada na cidade de Belém, em meados da década de 1990. A dissertação teve como título: “Tribos Urbanas” em Belém: Drag Queens – rainhas ou dragões?

Com base no conceito de sociabilidade, a autora desenvolveu uma pesquisa – na interface entre antropologia e sociologia – com o objetivo de compreender como determinados indivíduos construíam dinâmicas específicas de movimentação pela cidade.

Embora o eixo central do episódio trate de arte, cultura e política, em uma perspectiva de gênero e sexualidade, em alguma medida, do início ao fim dele é possível perceber a importância do cruzamento entre cidade e sociabilidade, especialmente a respeito do impacto de drags (Babeth Taylor, Yuka Necessaire, Biba Little e Gargamel) no espaço público urbano e em relação a outras “tribos urbanas” (skatistas, góticos, pichadores e reggaeiros), para a compreensão de como eram formados os ideais de modernidade na cidade de Belém.

Também participou do episódio a jornalista Adelaide Oliveira, que comentou sobre o período em que foi proprietária do bar Go Fish, epicentro de sociabilidade, durante a década de 1990, e um dos locais da pesquisa de Izabela. No relato de Adelaide é possível perceber a importância do bar para a afirmação de grupos que questionavam as convenções socioculturais da época.

Para saber mais, acompanhe o perfil do Compósita no Instagram (basta clicar aqui).

Ativando a escuta em tempos pandêmicos

Nesse momento de pandemia e isolamento, a circulação de informações e reflexões tornou-se fundamental. Saber permite que nos protejamos, cuidemos umas das outras, imaginemos futuros. É importante circular ideias em vários formatos, como artigos em periódicos, colunas de jornal e textos provocativos como no Boletim da ANPOCS. Além de textos, mais familiares às Ciências Sociais, proliferaram os webinars e as lives. Esses seminários têm atraído um público numeroso, diverso e de toda parte do globo, ampliando enormemente a nossa voz e driblando fronteiras nacionais, fusos horários e barreiras linguísticas. Há também ensaios fotográficos e diários pessoais, materiais que oferecem vividamente a perspectiva de quem olha pela janela, de quem está dentro de quatro paredes.

Nesse cenário, intensificou-se também um tipo de produção nas Ciências Sociais: os podcasts. Enquanto a maior parte dos materiais elencados até aqui demandam o sentido da visão, os podcasts acionam a escuta, a audição. O ouvir é muito oportuno nesse momento. Com a vista assoberbada pelo mundo majoritariamente escrito e visual da internet, ouvir um podcast permite desafogar os olhos da fadiga visual das telas. Ao mesmo tempo, pode ser uma mídia mais acessível a pessoas iletradas ou com deficiência visual. É generosa porque não exige exclusividade de atenção. Pode embalar exercícios físicos e tarefas domésticas e, para quem que não pode estar em confinamento, fazer companhia durante o transporte urbano.

Os podcasts contam com intertextualidades e intertexturalidades, já que, além das vozes, podem incluir músicas e efeitos sonoros, trechos de outros materiais, como filmes, poemas ou livros lidos em voz alta, ajudando a produzir paisagens sonoras com muitas camadas de sentido e sensações. Os materiais em áudio podem ser produzidos a baixos custos: há programas livres para edição e audição; não sucumbiram (ainda, felizmente) à comodificação e privatização da publicação científica; e podem ser escutados pelos aparelhos celulares mais populares, mesmo com baixas condições de conectividade. O podcast tem, ainda, grande potencial como recurso didático para o ensino remoto e, onde os calendários letivos estiverem suspensos, pode ser uma forma de manter discentes em contato com a área.

Por fim, os podcasts de Ciências Sociais comunicam, traduzem e popularizam o conhecimento produzido na área. Utilizam outro tipo de linguagem, mais informal e menos hermética, com ritmo mais intenso e tamanho menor. Em tempos de ataques às universidades e às Humanidades mais especificamente, ampliar a nossa capacidade de destrinchar o nosso saber para um público mais amplo se apresenta como uma tática política urgente. Inventar outros formatos para falar de Ciências Sociais é uma tarefa para a qual não fomos necessariamente formados, mas fundamental hoje em dia. Precisamos incorporar em nossos currículos cursos de divulgação científica, media training, edição de áudio, alfabetização nas mídias sociais, produção de textos criativos, palatáveis e claros.

Embora as Ciências Humanas brasileiras já estejam há algum tempo investindo na podosfera, nesses meses da pandemia houve uma grande ampliação dos podcasts da Antropologia. Novos episódios de programas que já estavam no ar e novos programas que foram lançados. Vamos comentar alguns desses podcasts para divulgar a produção da área, para ilustrar as seis razões que elencamos acima para incorporá-los em nossos cotidianos de trabalho, ensino e lazer e para demonstrar como têm elaborado uma gama de conteúdos e debates sobre Antropologia, e também sobre a pandemia do Covid-19.

O novíssimo Observantropologia, do PPGAS/UFPB, trouxe em seu primeiro episódio os impactos que a pandemia gerou na realização das pesquisas de campo de discentes e docentes e as adaptações encontradas. Conversas da Kata, produzido por estudantes do PPGAS/UnB, Conversas In(convenientes), dos colegas da UFSC, e Antropologia e Pandemia, do IFCH/Unicamp, todos no formato de mesa redonda, voltaram sua programação especificamente para o coronavírus. Mudanças recentes na produtividade, consequências dramáticas do vírus sobre as populações indígenas e discussão dos textos que já foram publicados sobre a pandemia foram algumas das estratégias adotadas por esses três programas. O Mundaréu, um podcast produzido por nós duas, numa parceria entre o DAN/UnB e o LABJOR/Unicamp, coloca em diálogo a antropóloga e sua interlocutora de pesquisa, e conhecemos como algumas populações se tornam potencialmente mais vulneráveis social e epidemiologicamente. Outro podcast lançado nesse momento foi o Antropólis da UFPEL. A partir da Antropologia Urbana, podemos imaginar como o Covid-19 pode atingir especificamente essas populações. Da mesma forma, AntropoLógicas, do Departamento de Antropologia e Museologia/UFPE, entrevista antropólogas daqui e de fora. Uma, por exemplo, contou como as mães solo acadêmicas têm feito para trabalhar nesse momento e ouvimos, inclusive, as demandas das crianças que estavam no recinto. A ANPOCS, pela primeira vez em sua história, lançou um podcast. Cientistas sociais e o coronavírus resolveu investir em depoimentos de trabalhadores dos setores essenciais que, em primeira pessoa, nos contam sobre como têm cuidado de adoecidos, clientes e de suas comunidades locais. Selvagerias, produzido por estudantes do PPGAS/USP, propôs uma analogia entre o final da sua primeira temporada e o final do mundo, com entrevistados e trechos de livros, numa melodiosa e quase melancólica intertextualidade. Poéticas sociais, da UFU, tem um formato de pílula, diminuto e delicado, e faz a leitura de trechos de romances da literatura que podem nos dar alento e fazer conexões inesperadas com a epidemia que vivemos.

De norte a sul do país, com formatos diversos, os podcasts na Antropologia estão em ascensão. O podcast não substitui o texto, são mídias complementares para apresentarmos e discutirmos nossos modos de fazer, nossos dados, análises e provocações. Ao que parece, a aposta é que os podcasts, além de divulgarem o trabalho de antropólogas e antropólogos, também possam chegar bem mais longe, sensibilizar gestores e autoridades que ainda não se deram conta da importância das Ciências Sociais para estudar fenômenos globais como o Covid-19 e da vulnerabilidade pronunciada de tantas populações com as quais fazemos nossas pesquisas.

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Soraya Fleischer é professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (soraya@unb.br).
Daniela Manica é professora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LABJOR) da Universidade Estadual de Campinas (dtmanica@unicamp.br). Juntas coordenam e produzem o Mundaréu

[1] Este texto foi inicialmente publicado em julho de 2020, no volume 78 do Boletim Cientistas Sociais e o Coronavírus, publicação da ANPOCS. O texto na íntegra e em sua versão original pode ser acessado aqui.

Sexualidades dissidentes na Amazônia paraense

O terceiro episódio do projeto Antropologias Compósitas recebeu o antropólogo e cientista social Milton Ribeiro (doutorando em antropologia pela UFPA e professor da UEPA) para uma conversa sobre sexualidades dissidentes na Amazônia paraense. Na conversa Ramon e Milton falam sobre gênero, sexualidade, relações raciais, masculinidades negras, espaço urbano e patrimônio histórico a partir das pesquisas e inserções profissionais do convidado.

A ideia, portanto, foi construir uma linha temporal de desenvolvimento das pesquisas sobre as sexualidades dissidentes partindo das suas escrevivências, das conexões com o movimento social dentro e fora da academia e das colaborações com grupos de pesquisa e ativistas em Belém (PA).

O episódio pode ser ouvido na íntegra aqui ou no Youtube:

E o mercado de trabalho, heim?

Como pensar as possibilidades de inserção e atuação profissional para antropólogas e antropólogos para além da academia? Essas questões foram algumas que orientaram o debate com Soraya Fleischer no 8° episódio do Conversas da Kata.

Soraya é responsável por uma disciplina de graduação sobre o mercado de trabalho da Antropologia. Organizada em blocos temáticos, nela Soraya discorre e conversa com profissionais sobre os espaços de atuação em que estão inseridos. A ementa e programa da disciplina podem ser conferidas aqui.

Ao longo da disciplina, estudantes descobrem que têm antropólogas em movimentos sociais, nas ONGs, nos sindicatos, nas agências de publicidade, em empresas de consultoria, pra só mencionar alguns. Essa matéria teve vários desdobramentos não planejados como a criação de redes de divulgação de estágios e empregos levando estudantes a conseguirem vagas enquanto estavam cursando a disciplina.

Para saber mais, escutem o episódio e leiam os textos recomendados no podcast.:

Lutas contra a dor e o racismo



Essa foi uma daquelas conversas que nos deixam com um nó na garganta. Guiadas por Zuma Nunes, que participa da Associação Paraibana dos Portadores de Anemias Hereditárias, e também pelas pesquisadoras Uliana Gomes e Durvalina Lima, ambas vinculadas ao PPGA da UFPB, o episódio 15 do Observantropologia tem como tema a anemia falciforme. Com ela, a convivência cotidiana com a dor, a falta de assistência de saúde adequada, o racismo e a invisibilidade. Uma luta incansável e cotidiana para quem vive no corpo a anemia falciforme e tudo que a acompanha.

A conversa foi mediada por Patrícia Pinheiro, com produção conjunta das pesquisadoras do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB, Camilla Iumatti Freitas e Stephanie Sacco. A edição é de Anatil Maux de Souza. A obra que ilustra o card é do quadro “the root of the flower we do not know”, da artista plástica zimbabuana Virginia Chihota, editada por Thiago Oliveira.

Para ouvir:



Dicas Culturais:
Biblioteca Gertrudes Maria no site da Abayomi/ PB
Associação Paraibana dos Portadores de Anemias Hereditárias (ASPPAH), Meia Lua em mim ;
livro “Quatro Décadas de Lua Minguante: O caminho até a cura da anemia falciforme”, de Elvis Silva Magalhães
livro “Textos em Ciências Sociais- Pesquisas e conhecimento na Interface sociedade –Saúde“, organizado por Ednalva Maciel Neves
livro “Meia lua em mim”, de Alessandra Reis