Histórias da Kata – Luís Cayón

Por Luís Cayón (Brasília, 16/07/2020)

O que é a katacumba para você?

Com a exceção de algumas viagens curtas e do ano que estive fora fazendo o campo do doutorado, praticamente frequentei a katakumba todos os dias entre março de 2004 e janeiro de 2011, incluindo páscoa, natal, ano novo… Passei as fases iniciais do namoro com minha esposa e toda a gestação do meu filho na Katakumba. Por isso, para mim, a kata é uma parte fundamental da minha experiência inicial no Brasil, e, certamente, foi uma fase existencial que terminou quando formei a minha família. Pelo lado profissional, foi o lugar onde tive a paz e o conforto para me dedicar como nunca à leitura e aos estudos, o qual me permitiu conectar conhecimentos e ideias que antes eram algo etéreas; também gerei muitas novas análises, escrevi artigos, relatórios e toda a minha tese. Pelo lado pessoal, foi o lugar mais importante durante meus primeiros anos em Brasília pois ali aprendi a ser “eu” como pessoa e antropólogo num novo registro: na kata aprendi a entender e falar o português do dia a dia, tive tanto amizades e desafetos como amores e ódios, criei memórias sobre o Brasil, tive que construir uma vida desde o zero num ambiente desconhecido, onde estava bastante sozinho e isolado da minha vida anterior e, ao mesmo tempo, tinha um universo novo para conhecer e me adaptar. No final do meu período como estudante de doutorado, estrangeiro, em prorrogação e sem bolsa, não tive outro remédio que me instalar tempo integral na minha sala. Sem mentir, muitas vezes nem vi a luz do dia e, de madrugada, senti outra vez a escuridão total das noites sem lua nas malocas makuna e conheci o silêncio absoluto… Em retrospectiva, estar na kata não foi um processo simples nem um lugar fácil, mas foi um lugar de refúgio, acolhimento e a única opção de vida social durante vários anos; por isso lhe guardo muito carinho, mas não sinto saudades. Ir embora resultou muito mais fácil do que pensei. Fiquei algo mais de 6 meses após a defesa da minha tese, e ainda tinha alguns objetos pessoais quando aconteceu a enchente e destruição da Katakumba em abril ou maio de 2011, se não me engano.

O que ela significou na sua trajetória?

A kata foi muito significativa pela troca de ideias com colegas, pela “orientação” informal já que podia opinar sobre as pesquisas de quem o permitia, muitas vezes ajudando a encontrar caminhos interpretativos ou recomendando leituras. Também me ajudou a perceber algumas situações que fazem parte dos estados de ânimo do difícil ciclo de cursar mestrado e doutorado e que hoje facilitam minhas conversas de orientação: todo mundo experimenta nalgum instante o clímax do lampejo, a tristeza e frustração depois de um encontro de orientação, o bloqueio na escrita, o conhecimento dos limites da própria ignorância, as dúvidas sobre a relevância e os caminhos da pesquisa, o vislumbre de uma tese faraônica… Por fortuna, permaneci na Katakumba numa época onde o diálogo e a crítica eram o mais importante, onde não existiam mais as projeções dos conflitos do DAN entre o corpo discente, tempo de brigas e insultos entre estudantes, nem, como ocorreu anos mais tarde, quando se gestou uma grande hostilidade dos discentes com relação aos professores, o qual gerou uma enorme tensão no departamento como um todo. As pessoas com as quais partilhei a Katakumba gostavam de sentar a tomar café, algumas a fumar um cigarro, para conversar sobre o que leiam, sobre as aulas, sobre a situação política, sobre música, e sempre havia alguém que conhecia histórias e boatos que alimentavam o acervo mitológico sobre o corpo docente, levando às risadas. No dia a dia era um ambiente sério e divertido, de emoções intensas.

Pensando no passado, sempre me perguntei “e se as paredes da Katakumba falaram, quais seriam as histórias que contariam?” Agora que me perguntam como parte dessa história, penso que é melhor não contar nada do que sei. O que acontece na Katakumba fica na Katakumba.

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