Podcasts como ferramenta de ensino-aprendizagem em Antropologia

por Paula Lacerda e Carolina Parreiras, originalmente publicado na revista Teaching Anthropology

Quando a pandemia da Covid-19 nos atingiu e as aulas presenciais se tornaram impossíveis, fomos forçadas a repensar como ministrar nossos cursos de uma forma que não dependesse apenas de aulas remotas por meio de plataformas digitais. Foi isso que nos levou a inovar e refletir sobre o papel dos dispositivos tecnológicos na promoção do envolvimento e da participação dos alunos. Neste post do blog, originalmente publicado em dezembro de 2020 na Teaching Anthropology, analisamos o uso de podcasts no ensino de Antropologia. Consideramos como uma ideia inicialmente criada para um curso específico, em uma universidade pública brasileira, tornou-se uma experiência maior de disseminação científica e inovação mais ampla, promovendo mais do que o envolvimento e a participação dos estudantes.

É importante ressaltar que os podcasts acadêmicos não são algo totalmente novo. Entretanto, queremos refletir sobre o uso de um produto tecnológico que possa criar novos meios para envolver os estudantes com o seminário e o conteúdo nele abordado. A antropologia é uma disciplina historicamente constituída pela experimentação, por isso a criação do podcast – no qual discutimos autoras e estudos em termos de suas contribuições para este campo de pesquisa – foi um grande laboratório para criar, testar, inovar tecnologicamente e buscar novas formas de apresentar ideias, temas e trajetórias.

O curso “Gênero, Estado e Processos de Subjetivação” foi oferecido a uma turma de 30 alunos de pós-graduação durante um semestre e fez parte do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciências Sociais. Diante dos desafios criados pela pandemia, e seguindo recomendações para explorar novas formas de ensino em ambientes remotos e criamos o “Campo: Um podcast de Antropologia”, disponível nas principais plataformas de streaming.

Os podcasts estão aumentando em popularidade como uma forma de disseminar o conteúdo acadêmico em uma linguagem simples. O formato frequentemente envolve episódios temáticos que exploram como e porque um texto ou ideia em particular foi desenvolvido, as principais influências teóricas, como o estudo foi recebido e posteriormente aplicado por outros autores. Escolhemos focar nossos podcasts no debate de ideias, pois este é o elemento mais importante no processo de ensino-aprendizagem. O histórico do texto e os movimentos teóricos foram discutidos coletivamente em aulas on-line após o lançamento do podcast.

A tecnologia pode ser um importante aliado no processo de ensino-aprendizagem durante um período em que as aulas presenciais são impossíveis. Não ignoramos, no entanto, que em um país como o Brasil, as taxas de desigualdade digital são relevantes e preocupantes. Eles atestam o caráter não democrático do acesso ao aparato tecnológico e às redes. Em nossa experiência, o feedback dos estudantes foi muito positivo e, com base nas questões levantadas por eles – por exemplo, a dificuldade de acesso às plataformas de streaming pagas – conseguimos adaptar o formato e o conteúdo. Uma dessas mudanças foi a utilização de um programa de hospedagem de podcast que permite sua distribuição em oito plataformas diferentes, para que qualquer pessoa pudesse escolher onde ouvir e acessar o conteúdo. Nossas experiências na criação do podcast corroboram com discussões no campo da antropologia digital sobre os desafios de fomentar e explorar novas formas de envolvimento e participação, especialmente com o uso da tecnologia nos processos educacionais.

logo campo podcast

Além do podcast, sentimos a necessidade de construir outras plataformas (um website e perfil Instagram) com três objetivos principais: divulgar o podcast e promover o envolvimento com o público, apresentar materiais educativos complementares (imagens comentadas, notícias, breves resenhas de livros, todos relacionados às autoras discutidas), e fornecer uma transcrição dos episódios, assumindo um compromisso com as práticas de acessibilidade. Investir em acessibilidade foi a principal motivação para criar ambientes digitais mais acessíveis a diferentes organismos e formas de estar no mundo, e para minimizar as desigualdades já mencionadas.

A primeira temporada foi composta por 6 episódios, com uma duração média de vinte minutos. Acreditamos que a linguagem utilizada, e a curta duração dos episódios são elementos a serem considerados na produção de materiais como um podcast atendidos em debates acadêmicos. Como não é possível especular sobre o contexto no qual o podcast é ouvido – seja em um ambiente de estudo ou não, com a possibilidade de tomar notas ou não – consideramos apropriado o uso de linguagem simples, tornando cada episódio adequado a um público variado, mas particularmente dirigido a estudantes de graduação e pós-graduação, que já têm uma compreensão básica de temas e conceitos antropológicos centrais.

Embora inicialmente destinado aos alunos do curso “Gênero, Estado e Processos de Subjectificação”, consideramos que a linguagem acessível do podcast o torna adequado para o ensino de estudantes de graduação ou pós-graduação, interessados em temas semelhantes além da Antropologia. O mapeamento dos dados dos podcasts associados ao website e dados de perfil da Instagram indicam a circulação do material além do público inicialmente planejado, com pessoas acessando o conteúdo em diferentes partes do Brasil e de diferentes faixas etárias.

Nosso objetivo neste post do blog é incentivar a discussão sobre o uso da tecnologia nas práticas educacionais. Em uma situação como a que estamos vivendo, esperamos que nosso podcast possa servir de exemplo para outras experiências e inovações no ensino da antropologia.

Nossos podcasts estão disponíveis gratuitamente no Spotify e são gravados em português. Os episódios duram aproximadamente 20 minutos. Durante a primeira temporada, cobrimos os seguintes autores: Gloria Anzaldúa, bell hooks, Veena Das, Michel Foucault, Judith Butler, Mara Viveros Vigoya.

Para pessoas interessadas no uso de podcasts no contexto de ensino, aqui vão algumas dicas.

  1. Antes de começar, é importante ter algumas perguntas respondidas de antemão: que conteúdo eu pretendo abordar? Como abordar este conteúdo (entrevistas com convidados regulares ou ocasionais? Um comentário sobre materiais como novos lançamentos, artigos de notícias, leituras clássicas?) Que público eu gostaria de atingir?
  2. Para produzir seu podcast, você não precisa ter nenhum equipamento especial. O dispositivo de gravação em um telefone celular, um ambiente silencioso, conexão à Internet e uma plataforma de transmissão de podcast são suficientes para que você possa começar. Existem plataformas livres (ex: Anchor, Buzzsprout) para transmitir seu material e, por meio delas, você pode disponibilizar seu podcast em diferentes tocadores (Spotify, ApplePodcast, etc.).
  3. Quanto mais direta e objetiva for sua linguagem, mais eficaz será sua comunicação com seu público. Portanto, para começar, é bom planejar episódios curtos. No início de cada episódio, comece com o nome do podcast e o assunto que será abordado.
  4. Construa as estratégias de divulgação de seu podcast. Um perfil simples nas redes sociais pode ser um bom ponto de partida. Criar um site requer um pouco mais de conhecimento tecnológico, mas existem plataformas e tutoriais gratuitos na internet que podem ajudar nesta empreitada!
  5. A acessibilidade é uma questão importante em relação aos podcasts (e qualquer conteúdo online). Nossa estratégia é disponibilizar transcrições de cada um dos episódios. Isto pode ser feito usando ferramentas de transcrição automatizada postadas em muitos formatos no website/blog. O Podcas Acessibility é um website foi muito importante para nós na criação de um podcast acessível:

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