Ativando a escuta em tempos pandêmicos

Nesse momento de pandemia e isolamento, a circulação de informações e reflexões tornou-se fundamental. Saber permite que nos protejamos, cuidemos umas das outras, imaginemos futuros. É importante circular ideias em vários formatos, como artigos em periódicos, colunas de jornal e textos provocativos como no Boletim da ANPOCS. Além de textos, mais familiares às Ciências Sociais, proliferaram os webinars e as lives. Esses seminários têm atraído um público numeroso, diverso e de toda parte do globo, ampliando enormemente a nossa voz e driblando fronteiras nacionais, fusos horários e barreiras linguísticas. Há também ensaios fotográficos e diários pessoais, materiais que oferecem vividamente a perspectiva de quem olha pela janela, de quem está dentro de quatro paredes.

Nesse cenário, intensificou-se também um tipo de produção nas Ciências Sociais: os podcasts. Enquanto a maior parte dos materiais elencados até aqui demandam o sentido da visão, os podcasts acionam a escuta, a audição. O ouvir é muito oportuno nesse momento. Com a vista assoberbada pelo mundo majoritariamente escrito e visual da internet, ouvir um podcast permite desafogar os olhos da fadiga visual das telas. Ao mesmo tempo, pode ser uma mídia mais acessível a pessoas iletradas ou com deficiência visual. É generosa porque não exige exclusividade de atenção. Pode embalar exercícios físicos e tarefas domésticas e, para quem que não pode estar em confinamento, fazer companhia durante o transporte urbano.

Os podcasts contam com intertextualidades e intertexturalidades, já que, além das vozes, podem incluir músicas e efeitos sonoros, trechos de outros materiais, como filmes, poemas ou livros lidos em voz alta, ajudando a produzir paisagens sonoras com muitas camadas de sentido e sensações. Os materiais em áudio podem ser produzidos a baixos custos: há programas livres para edição e audição; não sucumbiram (ainda, felizmente) à comodificação e privatização da publicação científica; e podem ser escutados pelos aparelhos celulares mais populares, mesmo com baixas condições de conectividade. O podcast tem, ainda, grande potencial como recurso didático para o ensino remoto e, onde os calendários letivos estiverem suspensos, pode ser uma forma de manter discentes em contato com a área.

Por fim, os podcasts de Ciências Sociais comunicam, traduzem e popularizam o conhecimento produzido na área. Utilizam outro tipo de linguagem, mais informal e menos hermética, com ritmo mais intenso e tamanho menor. Em tempos de ataques às universidades e às Humanidades mais especificamente, ampliar a nossa capacidade de destrinchar o nosso saber para um público mais amplo se apresenta como uma tática política urgente. Inventar outros formatos para falar de Ciências Sociais é uma tarefa para a qual não fomos necessariamente formados, mas fundamental hoje em dia. Precisamos incorporar em nossos currículos cursos de divulgação científica, media training, edição de áudio, alfabetização nas mídias sociais, produção de textos criativos, palatáveis e claros.

Embora as Ciências Humanas brasileiras já estejam há algum tempo investindo na podosfera, nesses meses da pandemia houve uma grande ampliação dos podcasts da Antropologia. Novos episódios de programas que já estavam no ar e novos programas que foram lançados. Vamos comentar alguns desses podcasts para divulgar a produção da área, para ilustrar as seis razões que elencamos acima para incorporá-los em nossos cotidianos de trabalho, ensino e lazer e para demonstrar como têm elaborado uma gama de conteúdos e debates sobre Antropologia, e também sobre a pandemia do Covid-19.

O novíssimo Observantropologia, do PPGAS/UFPB, trouxe em seu primeiro episódio os impactos que a pandemia gerou na realização das pesquisas de campo de discentes e docentes e as adaptações encontradas. Conversas da Kata, produzido por estudantes do PPGAS/UnB, Conversas In(convenientes), dos colegas da UFSC, e Antropologia e Pandemia, do IFCH/Unicamp, todos no formato de mesa redonda, voltaram sua programação especificamente para o coronavírus. Mudanças recentes na produtividade, consequências dramáticas do vírus sobre as populações indígenas e discussão dos textos que já foram publicados sobre a pandemia foram algumas das estratégias adotadas por esses três programas. O Mundaréu, um podcast produzido por nós duas, numa parceria entre o DAN/UnB e o LABJOR/Unicamp, coloca em diálogo a antropóloga e sua interlocutora de pesquisa, e conhecemos como algumas populações se tornam potencialmente mais vulneráveis social e epidemiologicamente. Outro podcast lançado nesse momento foi o Antropólis da UFPEL. A partir da Antropologia Urbana, podemos imaginar como o Covid-19 pode atingir especificamente essas populações. Da mesma forma, AntropoLógicas, do Departamento de Antropologia e Museologia/UFPE, entrevista antropólogas daqui e de fora. Uma, por exemplo, contou como as mães solo acadêmicas têm feito para trabalhar nesse momento e ouvimos, inclusive, as demandas das crianças que estavam no recinto. A ANPOCS, pela primeira vez em sua história, lançou um podcast. Cientistas sociais e o coronavírus resolveu investir em depoimentos de trabalhadores dos setores essenciais que, em primeira pessoa, nos contam sobre como têm cuidado de adoecidos, clientes e de suas comunidades locais. Selvagerias, produzido por estudantes do PPGAS/USP, propôs uma analogia entre o final da sua primeira temporada e o final do mundo, com entrevistados e trechos de livros, numa melodiosa e quase melancólica intertextualidade. Poéticas sociais, da UFU, tem um formato de pílula, diminuto e delicado, e faz a leitura de trechos de romances da literatura que podem nos dar alento e fazer conexões inesperadas com a epidemia que vivemos.

De norte a sul do país, com formatos diversos, os podcasts na Antropologia estão em ascensão. O podcast não substitui o texto, são mídias complementares para apresentarmos e discutirmos nossos modos de fazer, nossos dados, análises e provocações. Ao que parece, a aposta é que os podcasts, além de divulgarem o trabalho de antropólogas e antropólogos, também possam chegar bem mais longe, sensibilizar gestores e autoridades que ainda não se deram conta da importância das Ciências Sociais para estudar fenômenos globais como o Covid-19 e da vulnerabilidade pronunciada de tantas populações com as quais fazemos nossas pesquisas.

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Soraya Fleischer é professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (soraya@unb.br).
Daniela Manica é professora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LABJOR) da Universidade Estadual de Campinas (dtmanica@unicamp.br). Juntas coordenam e produzem o Mundaréu

[1] Este texto foi inicialmente publicado em julho de 2020, no volume 78 do Boletim Cientistas Sociais e o Coronavírus, publicação da ANPOCS. O texto na íntegra e em sua versão original pode ser acessado aqui.

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